17 de abril de 2017

Veja como foi a palestra "Ética na cidadania" na Distrital Oeste

Durante a 2ª reunião ordinária da Distrital Oeste da ACSP, Celso Fernando Gioia, presidente da OAB 96ª Subseção – Lapa e conselheiro coordenador do Comitê Jurídico da Distrital, proferiu uma palestra com o tema "Ética na cidadania".

Gioia iniciou a palestra perguntando: o que é ética? “Ética é o conjunto de regras de comportamento e formas de vida através das quais tende o homem a realizar o valor do bem”. Esta definição é do filósofo Eduardo Garcia Máynez. Portanto, ética pode ser entendida como o estudo ou análise de nossa conduta e da conduta de outros no sentido de conduzir-se ao bem comum e ao que é bom para todos. Não se deve prestigiar pensamentos individualistas, ao contrário, pois os valores coletivos geram bons resultados.

Mas o que é o bem comum? O que é bom para todos? Para descobrir é preciso analisar sua conduta e reconhecer se aquilo que está fazendo é o melhor para todos, não somente para alguns. Ética e moral são duas coisas diferentes. Moral é um sistema de normas de conduta, como por exemplo não mentir, não praticar um ato falho de educação à mesa etc. São normas aprendidas em casa. Alguns ditados muito usados antigamente remetem à norma moral, como por exmeplo, “Cada cabeça uma sentença” ou “Quem com ferro fere com ferro será ferido”. Estas normas estão ligadas pela sociedade ou por um grupo social.

Ética é a crítica ao sistema de normas criado para o bom convívio. Por exemplo: um árabe quando vem para o Brasil não seguirá suas regras morais por uma questão de ética. Ele sabe que alguns costumes são bem aceitos por seu grupo de convívio, mas talvez não o sejam em outro país. Assim como um brasileiro, quando se muda para outro país, deixa de seguir a maioria de seus costumes e adere aos costumes do respectivo país. Isso tem o objetivo de atingir o bem comum do novo grupo em que se faz parte.

Para que se entenda bem a diferença entre moral e ética, Dr. Gioia contou a seguinte história: "Um sábio estava sentado em uma pedra à beira de uma estrada quando passou diante dele uma pessoa fugindo de bandidos. Esta pessoa pediu ao sábio que não dissesse aos bandidos para que direção ele havia ido. O sábio concordou e a pessoa seguiu seu caminho. Porém o sábio possui a regra moral de não mentir, assim, se os bandidos perguntassem sobre a pessoa, o certo seria ele apontar o caminho. Por uma questão ética, o sábio não queria apontar o caminho. A solução encontrada pelo sábio foi trocar de lugar. Assim, ele sentou em outra pedra. Quando os bandidos passaram e perguntaram sobre aquela pessoa, ele respondeu: 'Desde que sentei nesta pedra, não vi ninguém passar por aqui'."

O sábio usou uma solução criativa para resolver este problema respeitando sua moral e agindo de forma ética. Esta história nos ensina que precisamos ter experiência e criatividade para manter a moral e agir eticamente. O ideal é guardar suas regras morais dentro de um comportamento ético.


A ÉTICA É COMPOSTA POR IGUALDADE, VALORES, DIREITOS, RESPEITO ETC

Qual é a relação da ética com o Direito? Se a ética busca uma convivência harmônica que propicie o bem comum, o Direito é uma área da ética que o Estado chamou para sua tutela, por entender ser indispensável. O comportamento de conviver bem com os outros é muito abrangente. O Direito surge quando o Estado entende que alguma norma ou conduta ética é tão importante que, se ela for violada, o Estado impõe uma penalidade.

A moral equivale ao Direito, regras legais, e a ética equivale a justiça. O objetivo do Direito é a justiça e o objetivo da moral é o comportamento ético.

No Brasil há mais de 200 mil leis. Mesmo com tantas leis, elas não podem resolver todos os problemas dos brasileiros pois, se todas as normas morais forem transformadas em leis, perde-se a conduta ética e moral. No Brasil existe um excesso legislativo. A situação atual da sociedade, do ponto de vista ético, é: tendo em vista o excesso legislativo, a moral e a ética perderam sua força no país. A greve da PM no Espírito Santo representa uma crise ética. Moral e ética não são mais ensinadas nas escolas e nas faculdades.

Estaríamos todos sem ética? Esta é uma pergunta para se pensar. O historiador Leandro Karnal disse: "Não existe país com governo corrupto e população honesta". Muitas pessoas reclamam da corrupção, mas sonegam impostos. É como se fosse uma solução vingativa - pagar crime com outro crime.

A vingança é contra a ética, pois ela eterniza o conflito, em vez de resolvê-lo. Um exemplo é o da cidade de Exu, onde os membros de uma família matam membros de outra família. Isso acontece há décadas por vingança. A vingança jamais trará o comportamento ético, na verdade, ela é a negação do comportamento legal e ético. Ás vezes, este comportamento é legitimado como solução para a falta de ética.

Há o exemplo do goleiro Bruno, que recentemente saiu da prisão. Ao serem libertados, esperamos que os detentos tenham uma recolocação no mercado de trabalho. Porém, no caso do goleiro Bruno, a situação foi diferente. Houveram muitas críticas sobre seu novo emprego. Isso é uma forma de vingança por parte da sociedade. Ele recebeu sua penalidade e cumpriu, tudo que for além disso é vingança.

ÉTICA X PRATICIDADE MODERNA

A praticidade moderna tem um lado muito positivo, como o acréscimo quantitativo e qualitativo das coisas: aumenta-se o número de desenvolvimentos, como na medicina e na abundância de alimentos. Mas a vida moderna também traz alguns desafios para a ética, como a superpopulação, que dá origem a:

1. Excesso de competitividade: Onde há excesso de competividade, os princípios éticos são relativizados.

2. Aumento de conflitos: Onde há muitas pessoas há mais conflitos. E quem entra em um conflito sempre quer ter razão.

3. Supervalorização dos Direitos Humanos: Nesta sociedade os direitos individuais estão sendo supervalorizados. Os Direitos Humanos surgiram para ter uma base para que se entenda o que é um padrão de vida digna, e não para impor o mesmo padrão para pessoas que cometem crimes. Quem comete um crime infringe um direito da outra pessoa.

A vida moderna também trouxe velocidade e entretenimento, tais como praticidade na comunicação, que geram:

1. Falta de reflexão: Há tantas coisas para fazer durante o dia que não sobra tempo para refletir sobre sua conduta e coisas importantes.

2. Perda de sensibilidade: Na vida corrida, acabamos não olhando para o lado para ver se alguém precisa de ajuda.

3. Exclusão social: Quem possui celular e sabe mexer está incluído, quem não, está excluído. Quem raciocina rápido é bom, quem é mais lento não.

A nossa atual sociedade está composta de uma forma que desafia a nossa ética. A questão dos Valores, para quem acredita ter sido criado por alguém e com um propósito, como por Deus por exemplo, acredita que quando nascemos existem valores que nos precedem como amor, vida, trabalho etc.

Conhecemos um homem pelos valores que ele demonstra e pelos valores que ele protege. A família tem valor precioso que devemos defender. A ética é um exercício da análise do valor que se está colocando em prática.

Um excelente exercício ético, no final do dia, é refletir sobre nossa conduta diária. Para isso é útil ter uma tabela de hierarquias. Max Scheler, filósofo alemão, criou uma tabela de valores, onde os itens mais importantes ficam de baixo para cima: espiritualidade; ética; valores estéticos; valores lógicos; saúde e economia. Todos podem estabelecer sua própria escala de valores.

COMO RESTAURAR A ÉTICA NA CIDADANIA?

Vemos os primeiros sinais de restauração da ética quando as pessoas citam filósofos, historiadores e neurocientistas como parâmetro. De uma forma bem prática, sugere-se:

1. Servir-se de fontes éticas: Não dar atenção às informações de fontes não éticas que recebemos diariamente.

2. Reforçar internamente seus códigos morais: Tais como lições passadas de pais para filhos.

3. Refletir diariamente sobre a conduta e valores: Toda noite relaxar e refletir sobre suas ações, conduta e valores.

4. Respeitar incondicionalmente todas as diferenças: Todos somos diferentes uns dos outros.

5. Rejeitar privilégios e buscar o bem comum: Lembrar que o privilégio é a negação do coletivo e nunca trará maior equilíbrio social. As oportunidades devem ser iguais para todos.

6. Entender que as normas são éticas: Seguir as leis válidas para todos e em todos os momentos.

7. Ser cidadão: Proteger e incentivar as normas morais e éticas.