17 de julho de 2017

Junho 2017: A economia se recupera apesar da crise política

Se bem é certo que analistas de mercado nacionais e internacionais realizaram revisões para baixo das projeções de crescimento da economia brasileira para 2017 e 2018, não se pode deixar de reconhecer que, apesar da crise político-institucional sem precedentes que se instalou no País, após a delação da JBS, continuam havendo diversos
sinais de recuperação da atividade.

As vendas do varejo continuam mostrando perdas de intensidade nas contrações observadas nos resultados acumulados em 12 meses, que permitem apreciar de forma mais clara as tendências desse setor. A recomposição do poder aquisitivo das famílias, devido ao recuo da inflação, a liberação dos recursos inativos do FGTS, a redução da taxa de juros e a base fraca de comparação de 2016 entram como fatores explicativos.

No caso da indústria, também continua a ser observada uma tendência de arrefecimento nas retrações registradas na mesma base de comparação anterior, o que se explica fundamentalmente pelo desempenho positivo de alguns segmentos orientados à exportação.

Até mesmo o setor serviços, o principal em termos da produção total, após longo período de quedas consecutivas em termos anuais, começou a esboçar algum arrefecimento no resultado acumulado em 12 meses, devido principalmente à maior demanda por transportes e armazenamento por parte dos setores agrícola e industrial.

É certo que o aumento da incerteza política provocou reduções nos índices de confiança do consumidor e dos empresários, o que tenderia a diminuir as intenções de compra das famílias e de investimento produtivo das firmas ao longo dos próximos meses.

Porém, essas reduções não foram realmente significativas, permanecendo próximas às margens de erro a que são sujeitos os cálculos desses indicadores. Por sua vez, o setor agrícola segue apresentando recordes na produção anual, o que contribui para a retomada da atividade de forma direta, e também de forma indireta, aumentando a oferta de alimentos, o que contribui para reduzir seus preços, garantindo a continuidade da redução da inflação, e, portanto, das taxas de juros.

Embora a recuperação da economia siga sendo bastante lenta, a crise política não tem sido capaz de alterar sua trajetória, que, num primeiro momento tem implicado em arrefecimento da contração, para posteriormente iniciar novo ciclo de crescimento. Crucial para que não se desfaça essa “inércia positiva” é a manutenção da direção da política econômica e das reformas estruturais, principalmente a previdenciária.

 

 

Análise da Conjuntura

1. Moeda, Crédito e Inflação

De acordo com o Banco Central, em maio, o crédito à pessoa física mostrou aumento em 12 meses de 1,6%, superior ao registrado em abril, na mesma base de comparação, porém ainda abaixo da inflação observada ao longo do ano (3,6% - IPCA).

Em junho, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) surpreendeu, mostrando deflação (-0,23%) abaixo da expectativa do mercado (-0,17%). Desse modo, a inflação no acumulado em 12 meses diminuiu ainda mais, alcançando a 3,0%, que é o limite inferior da meta anual perseguida pelo Banco Central.

2. Atividade Econômica e Emprego

Em maio, também de acordo com o IBGE, a atividade industrial registrou alta de 4,0% sobre o mesmo mês de 2016, porém com um dia útil a mais. No acumulado em 12 meses, a contração (-2,4%) seguiu perdendo intensidade em relação à leitura anterior (-3,6%). Na comparação com maio do ano passado, destaca-se a alta de 27,9% no ramo de veículos, graças às exportações. Também houve crescimento da produção de bens de
capital (7,6%), ajudado pela maior demanda de equipamentos destinados aos setores agrícola, transporte e construção.

No mesmo mês, segundo o IBGE, também houve aumento tanto do varejo restrito (que não inclui veículos e material de construção), como do ampliado (que inclui todos os segmentos), em relação a maio do ano passado (2,4% e 4,5%, respectivamente). No resultado acumulado em 12 meses seguiu ocorrendo arrefecimento das contrações de ambos tipos de varejo (-3,6% e -5,3%, respectivamente), frente ao observado em abril (-4,6% e -7,1%, respectivamente). No contraste interanual, vale mencionar as altas nas vendas de veículos (4,5%), material de construção (9,3%) e móveis e eletrodomésticos (13,8%), sugerindo que a queda da taxa básica (SELIC) pode estar chegando ao varejo, via queda de juros e alongamento de prazos.

Ainda de acordo com o IBGE, o setor serviços recuou 1,9% em maio, sobre igual mês de 2016, refletindo o alto nível de desemprego. Pesaram os serviços de pessoas físicas prestados a empresas (-5,7%) turismo (-5,2%) e outros serviços (-6,2%). A boa notícia foi a elevação do volume de serviços de transporte e armazenagem prestados (4,9%), refletindo as maiores demandas decorrentes da indústria, da agricultura e das exportações. Também foi significativa a desaceleração da retração em 12 meses (-4,7%), após vários meses registrando quedas mais intensas (-5,0%).

Dados da ACSP/BVS, com base nas consultas efetuadas durante o primeiro semestre, sobre o mesmo período de 2016, registraram quedas de 3,1% nas compras parceladas e 2,3% nas compras à vista, porém menos intensas que as observadas nos primeiros cinco meses do ano.

A confiança do consumidor, medida pelo Índice Nacional de Confiança (INC), calculado pelo IPSOS para a ACSP, mostrou, em junho, leve redução em relação ao mesmo mês de 2016 (-2,8%), estável dentro da margem de erro permitida (3,0%). A maioria dos entrevistados (59,0%) permaneceu insegura no emprego, apesar de que o número de pessoas desempregadas conhecidas por eles alcançou a 5, menor número desde abril de 2016.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), divulgada pelo IBGE, a taxa de desemprego em maio chegou a 13,3% da força de trabalho, frente a 13,6%, registrada no mês anterior. A massa de rendimentos, que representa a renda das famílias auferida no mercado de trabalho, mostrou alta de 0,9% (-1,3% na ocupação e +2,3% nos salários), em relação a igual mês do ano passado. Esses resultados poderiam indicar que a desocupação pode ter iniciado uma queda gradual.

A taxa de inadimplência da pessoa física, medida pelo Banco Central, se elevou levemente em maio, em relação a abril, alcançando a 4,1% da carteira. A retração do crédito e a aversão a adquirir novos empréstimos, por parte do consumidor, seguem mantendo a inadimplência controlada.

Por sua vez, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-BR), que funciona como prévia do Produto Interno Bruto (PIB), anotou, em maio, queda de 0,51% em relação a abril, livre de efeitos sazonais, contrariando expectativas de leve alta por parte do mercado. Contudo, no resultado acumulado do ano, menos sujeito a volatilidade excessivas, se registra praticamente uma situação de estabilidade (-0,05%).

Em síntese, os dados dos primeiros cinco meses do ano sugerem que o nível de atividade continua caminhando para a estabilidade, embora de forma ainda bastante lenta.

A inflação oficial (IPCA) segue em franca trajetória de redução, o que tem levado alguns analistas a prever um resultado anual abaixo do limite inferior da meta de inflação (3,0%), o que poderá permitir que o Banco Central intensifique a redução da taxa de juros básica (SELIC).

3. Finanças Públicas

De acordo com o Banco Central, em maio, o Governo Consolidado (União, Estados, Municípios e Estatais) anotou déficit primário (excesso de despesas não financeiras sobre receitas) de R$ 30,7 bilhões. Esse resultado foi o pior para o mês, desde 2001, ano de início da série compilada pela autoridade monetária, surpreendendo os analistas de mercado.

Durante os primeiros cinco meses do ano e no acumulado em doze meses também foram gerados saldos negativos de R$ 15,6 e R$ 157,7 bilhões (2,47% do PIB), respectivamente. Chama a atenção, em particular, esse último resultado, bastante superior à meta anual de déficit primário fixada pela autoridade econômica (R$ 143,1 bilhões).

À primeira vista, esses números poderiam sugerir uma ampliação importante da deterioração fiscal do Governo Central (Tesouro Nacional, Banco Central e INSS), responsável isolado pelo resultado negativo do mês, já que apresentou déficit de R$ 32,1 bilhões, enquanto os governos subnacionais e as empresas estatais apresentaram saldos positivos (R$ 894 milhões e R$ 475 milhões, respectivamente).

Contudo, no mês de maio ocorreu uma importante despesa extraordinária de R$ 10 bilhões, relativa ao pagamento de precatórios por parte do Tesouro Nacional, cujo cronograma foi alterado de novembro e dezembro para maio e junho, sem prévio aviso. A inclusão dessa despesa também “contaminou” os resultados no acumulado no ano, e,
principalmente, em 12 meses, que também “carregam” os desembolsos realizados nos dois últimos meses do ano passado.

De todo modo, a situação fiscal dista muito de ser confortável. De acordo com o Tesouro Nacional, a despesa com pessoal ativo e inativo da União cresceu 11,8% em termos nominais (sem corrigir pela inflação), de janeiro a maio de 2017, enquanto os gastos com benefícios previdenciários (INSS) e assistência social subiram 7,2% e 10,1%,
respectivamente. No total, o aumento da despesa alcançou a 3,4% durante o mesmo período, acima do crescimento da receita corrente líquida do Governo Central (1,1%).

Também segundo o Banco Central, o pagamento dos juros da dívida pública correspondeu a R$ 36,3 bilhões em maio, cifra bastante superior à observada em abril (R$ 28,3 bilhões), devido fundamentalmente ao número maior de dias úteis, enquanto nos primeiros cinco meses do ano e no acumulado em 12 meses chegaram, respectivamente, a R$ 175, 1 bilhões e R$ 430,9 bilhões (6,7% do PIB).

Somando-se os resultados primários com as despesas financeiras anteriores, chegasse ao resultado nominal que foi negativo (déficit) no mês, no acumulado do ano e nosúltimos 12 meses, alcançando a R$ 67, R$ 190, 7 e R$ 588,6 bilhões, respectivamente, equivalendo neste último caso a 9,22% do PIB, patamar considerado bastante alto, para os padrões internacionais.

Esses últimos resultados significam que o Governo teve que financiar o “rombo” fiscal total, o que continuou aumentando seu endividamento, que passou de 71,7% do PIB em abril para 72,5% do PIB em maio, diminuindo ainda mais a solvência futura das contas públicas brasileiras.

Para cumprir a meta anual de déficit primário o Fisco conta com o aporte de receitas extraordinárias, tais como as que podem ser geradas pelo novo programa de parcelamento de dívidas tributárias (REFIS), pela tomada de precatórios não sacados a mais de dois anos, pela reoneração da folha de salário e a reprogramação do pagamento de outorgas de aeroportos, entre outras.

O mercado não acredita no cumprimento da meta fiscal, de acordo com o Relatório Prisma Fiscal da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, divulgado em julho, que projeta um saldo primário negativo em 2017 de 145,3 bilhões, superior ao valor prometido pelas autoridades fiscais (R$ 143, 1 bilhões).

4. Setor Externo

A balança comercial continua apresentando superávits recordes neste primeiro semestre do ano. Em junho, o saldo comercial foi de US$ 7,2 bilhões, 81% superior a idêntico mês de 2016, com as exportações totalizando US$ 19,8 bilhões e as importações US$ 12,6 bilhões. Esses valores representam um crescimento de 23,9% e 3,3%,
respectivamente, sobre junho do ano passado, medidos pela média diária.

Nos primeiros seis meses, a balança comercial acumulou um saldo positivo de US$ 36,2 bilhões, recorde histórico para o período, obtido principalmente pela expressiva alta nas exportações. As vendas para o exterior alcançaram US$ 107,7 bilhões, registrando uma expansão de 19,3% em relação a 2016, na mesma base de comparação.

A supersafra de grãos, especialmente das exportações de soja, e os melhores preços internacionais das commodities, como minério de ferro e petróleo, foram os principais responsáveis pelos números positivos da balança comercial. Destacaram-se também as vendas de açúcar, celulose, automóveis de passageiros e veículos de carga, entre os produtos industrializados.

A China é a principal compradora (US$ 28,1 bilhões), seguida dos Estados Unidos (U$ 12,9 bilhões), Argentina (US$ 8,3 bilhões), Países baixos (US$ 4,7 bilhões) e Chile (US$ 2,5 bilhões). Esses cinco países, em seu conjunto, representaram 52,5% do valor total das vendas externas brasileiras, no semestre.

As importações também cresceram, mas em ritmo mais modesto, acumulando no semestre o valor de US$ 71,5 bilhões, um incremento de apenas 7,3% no período, ainda reflexo da fraca recuperação da economia brasileira. Aumentaram as compras de combustíveis e lubrificantes, bens de consumo e bens intermediários (insumos para a
agricultura e petroquímica). Em compensação, caíram as compras de bens de capital (-27,6%), em decorrência da crise econômica.

Parcela importante das importações no período ficou concentrada em cinco países: China (US$ 12,5 bilhões), Estados Unidos (US$ 12,5 bilhões), Argentina (US$ 4,6 bilhões), Alemanha (US$ 4,4 bilhões) e Coréia do Sul (US$ 2,6 bilhões), que, no conjunto, representou 51,2% do total das compras externas.

No entanto, os robustos saldos comerciais continuam ajudando a manter o equilíbrio das contas externas, levando o governo a mudar suas projeções para este ano. Enquanto o Ministério do Desenvolvimento (MDIC) prevê um superávit de US$ 60 bilhões para a balança comercial (antes US$ 55 bilhões), o Banco Central reduziu o déficit esperado das “transações correntes” de US$ 28 bilhões para US$ 24 bilhões.

As “transações correntes”, soma dos saldos das contas comerciais e de serviços, no acumulado dos últimos doze meses terminados em maio, tiveram seu déficit reduzido de US$ 29,6 para US$ 18,1 bilhões, confortavelmente coberto pela entrada de investimento direto no país (IDP), de US$ 32,5 bilhões, registrados apenas nos primeiros cinco meses do ano. Nesse período, o que voltou a crescer foram as despesas dos brasileiros em viagens ao exterior (de US$ 2,4 para US$ 4,6 bilhões), em decorrência de uma taxa cambial favorável ao turismo externo.

Depois que o Banco Central, conteve a instabilidade no mercado cambial ocorrida em maio, gerada pela delação dos controladores da JBS, envolvendo o governo Temer, a cotação do dólar voltou a se estabilizar, registrando apenas pequenas flutuações, fechando o mês de junho valendo R$ 3,31. No semestre, houve uma apreciação do Real de 1,5% em relação à moeda americana e, nos últimos doze meses, de 3,1%, praticamente acompanhando de perto o aumento da taxa de inflação nesses períodos.

Sintetizando, a relativa estabilidade cambial, a supersafra de grãos, os melhores preços internacionais das commodities e a fraca demanda interna, tem sido as principais causas do crescimento das exportações neste ano, ajudando o país a se recuperar da crise econômica.

As vendas externas, no entanto, continuam concentradas em poucos produtos primários e dependendo de poucos mercados consumidores. Os produtos básicos representaram 49% das exportações, e apenas cinco países importaram 52% dos produtos brasileiros, no primeiro semestre do ano. Buscar acordos comerciais com outros países e avançar nas negociações de comércio entre o Mercosul e a Europa podem abrir caminho na busca da diversificação de mercados e dos produtos da pauta de exportação brasileira.